O otimismo que eu não compartilho
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*3 de setembro de 2026*
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Repetem por aí que o brasileiro tem no sangue a fé em dias melhores. Pode ser. Mas essa fé é exatamente o que permite que o sistema atravesse escândalo atrás de escândalo sem nunca precisar prestar contas. Não é ingenuidade coletiva por acaso — é a matéria-prima de que qualquer poder entrincheirado mais precisa: gente disposta a esperar que tudo se resolva sozinho.
Eu não espero. E este texto não é uma análise equilibrada de “diferentes perspectivas”. É a minha leitura, e eu a sustento sem pedir licença.
**O sistema queima quem for preciso**
O sistema queima pessoas sem pestanejar. Isso não é metáfora, é operação. Nomes caem — um ministro, um banqueiro, um operador qualquer — e a estrutura que os produziu segue intacta, porque nunca foram os nomes que sustentavam o poder; foi sempre a arquitetura por trás deles.
É dessa arquitetura que Alexandre de Moraes — o Xandão — faz parte, e é por isso que a possibilidade mais provável não é a sua queda espetacular, mas a sua saída administrada: aposentadoria dourada, no máximo. Impeachment é hipótese de manual, não de prática. Xandão não precisa de imagem pública para se manter onde está, e é exatamente por isso que ele pode ser sacrificado sem que nada mude — o poder que ele exerceu não desaparece com ele, apenas muda de mãos dentro do mesmo círculo. E existe sempre a possibilidade, talvez a mais provável de todas, de que nada aconteça. O sistema brasileiro tem uma capacidade quase artística de absorver indignação e não produzir consequência nenhuma.
**Um homem íntegro, usado por um sistema que não é**
André Mendonça é, no meu julgamento, um homem de caráter admirável. Isso não é elogio complacente — é minha avaliação de quem já esteve com ele em situação de trabalho. Mas eu não acredito em coincidências, e recuso a explicação de que múltiplos processos com potencial de derrubar Moraes tenham caído nas mãos de Mendonça por sorteio aleatório justamente no momento em que a oposição a Lula tem mais munição do que nunca e precisa, taticamente, de um vilão mais visível do que o próprio presidente.
Essa é a minha leitura política, e eu a apresento como tal: não tenho o documento que prova adulteração no sorteio processual, e não vou fingir que tenho. O que tenho é um padrão — de timing, de coincidência política, de conveniência — que me convence, a mim, de que a distribuição não foi acaso. Quem quiser provas documentais de fraude no sistema de distribuição vai ter que buscá-las em outro lugar; aqui está minha interpretação dos fatos públicos, e ela é essa: Mendonça foi colocado, deliberadamente, no lugar onde sabiam que ele faria exatamente o que fez. Um homem correto, usado com precisão cirúrgica por um sistema que não é.
**O personagem trocado**
Enquanto isso, o foco que deveria estar em Lula — que carregava até pouco tempo o peso de ser o principal alvo político do país — se dissolve. A atenção pública migra para Xandão e para meia dúzia de outros intocáveis, e o efeito prático, haja ou não coordenação central por trás disso, é o mesmo: o personagem mau da história deixou de ser quem era antes.
O resultado, para mim, já está escrito: alguns nomes de segundo escalão vão pagar de verdade, como prova pública de que “o sistema funciona”. O nome mais alto na hierarquia vai sofrer, na pior das hipóteses para ele, uma saída organizada — nunca a desonra plena que caberia ao que fez. Isso não é profecia vaga; é o padrão que esse sistema repete desde sempre.
**A objeção que existe — e por que ela não me convence**
Existe quem diga que o sorteio processual é robusto, que Mendonça está apenas cumprindo seu papel constitucional diante de indícios que a lei da probabilidade eventualmente coloca na mesa de qualquer ministro, e que chamar isso de manipulação é fadiga política travestida de análise. Registro essa posição porque ela existe e tem defensores de boa-fé. Mas não é a minha, e não vou fingir neutralidade que não sinto: a coincidência de timing entre o auge da força da oposição e a chegada desses processos a Mendonça é grande demais para eu tratar como acaso.
**Manipulados, como sempre**
O que sobra, no fim, é a mesma pergunta de sempre: por que seguimos deixando que a estrutura de poder decida, ano após ano, qual será o vilão da vez? Porque é isso que estamos fazendo — sendo manipulados, mais uma vez, não por um único homem, mas pela nossa própria disposição de acreditar que desta vez vai ser diferente.
Não vai. Não enquanto a arquitetura que produz Xandões continuar de pé, não importa quem caia individualmente, não importa quem vença as eleições deste ano.
E, para ser inteiramente claro sobre o que penso, vou além: para mim isto é truque de mágica. É diversionismo, armado às vésperas da eleição, com um propósito bem definido — tirar candidatos e eleitores do foco em Lula e jogar a atenção nacional inteira sobre Xandão. Enquanto o país discute o ministro, ninguém discute o presidente. Esse deslocamento não é acidente de calendário; é, na minha leitura, o objetivo do exercício. E ele funciona: facilita o trabalho eleitoral de Lula exatamente no momento em que a oposição tinha, pela primeira vez em anos, munição de sobra para não deixá-lo respirar.
Publicado por Arnaldo Adasz.